A Viagem Permanente – O Cinema Inquieto da Geórgia

O cinema georgiano tem, nos últimos anos, despertado crescente atenção e expectativa internacional, talvez surpreendente dada a dimensão do país e a sua complexa situação política recente. Perto de celebrar três décadas de independência, a Geórgia foi, na sua longa existência, conhecida pela diversidade física, humana e cultural, formada por uma geografia e história que, entre a aldeia remota e a diáspora dinâmica, favoreceram simultaneamente o isolamento e o cosmopolitismo.

Falar de cinema georgiano é falar também, na maior parte da sua existência, de cinema soviético. Uma minoria de bolcheviques locais (entre os quais um certo Iosseb Djugachvili, mais conhecido pelo nome de guerra russificado, Iossif Stalin) está na vanguarda da incorporação do país na esfera soviética, mas a participação nas dinâmicas desta é protagonizada por toda a Geórgia: poliglota, desenvolta e proeminente na União e ao mesmo tempo culturalmente distinta e irredutível. A sua arte, incluindo o cinema, logo se torna um exemplo vibrante dessa excepcionalidade.
Cineastas como Nikoloz Chenguelaia, Mikhail Kalatozov, Nutsa Gogoberidze e Kote Mikaberidze, na sua indagação da história e dos caminhos do país, na modernidade do gesto e das escolhas, assumiram a vanguarda artística da sua época. O estalinismo estancou essa energia, que o cinema georgiano recuperaria perto dos anos 1960 com uma geração de realizadores formada em Moscovo: Abuladze, Tchkheidze, Lana Gogoberidze, Iosseliani, Essadze, Kvirikadze, os irmãos Eldar e Guiorgui Chenguelaia. Nas três décadas seguintes, a ficção, o documentário e a animação georgianos reflectiriam sobre a condição de uma sociedade dividida entre as oportunidades e os limites do império. Outras três décadas mais, as da independência do jovem país, confirmaram a tradição de relevância social e artística do seu cinema.
Em dez dias, é possível aflorar apenas algumas obras e caminhos desse cinema essencialmente desconhecido em Portugal, onde foi quase sempre apercebido de relance. Optámos por uma escolha mais numerosa, sacrificando destaques individuais. Certas ausências (Tchiaureli, Essakia, Danelia, Mtchedlidze) serão mais notadas, mas todas (particularmente na produção contemporânea) resultam dos limites de uma selecção abrangente da produção historicamente rica dos estúdios georgianos.
A retrospectiva apresenta vários filmes restaurados no âmbito do acordo entre Geórgia e Rússia para o regresso a Tbilissi do seu património cinematográfico. Este contexto é também uma oportunidade para sinalizar a importância de cada filme a exibir, quando o precário estado das cópias ou a sua indisponibilidade pura e simples condicionam qualquer programação. Ao mesmo tempo, o percurso de retorno sublinha a vocação viajante de um cinema característica e incessantemente reflexivo, cuja descoberta pode, esperamos, levar-nos a uma relação mais atenta e profunda com a sua história e a sua actualidade. Ambas inquietas.

– Marcelo Félix
Curador da retrospectiva

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O Cáucaso Profundo 1
22 OUT / 15.30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

O Jovem e o Leopardo é um poema tradicional georgiano que Mariam Kandelaki visualiza e dá a ouvir neste fresco animado, expressão do amor do seu país à poesia. Caucasian Love narra a expulsão pelo Império Russo de uma aldeia muçulmana no Cáucaso em 1846. Com sequências antológicas, admirado por Eisenstein, é um dos grandes filmes soviéticos dos anos 1920.

O Cáucaso e a Revolução 1
22 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Buba é uma aldeia montanhosa remota, onde a dureza da vida coexiste com a beleza do lugar. A obra da realizadora só recentemente saiu de um longo esquecimento. Em Salt for Svanetia, o tema é semelhante, sublinhando o paralelo entre as carências básicas e as tradições de uma região inóspita que o jovem poder soviético se propunha modernizar.

A Difícil Liberdade 1
22 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Em Girl and Fountain, a heroína extrai de uma tempestade um mundo novo e uma companhia especial. Expoente da animação de marionetas do seu país, Karlo Sulakauri (1924-2000) é um cineasta a descobrir. Na Tbilissi de 1992, abalada pela guerra civil, duas amigas, Eka e Natia, vivem a angústia e as esperanças de uma adolescência a que falta tempo.

O Cáucaso e a Revolução 2
23 OUT / 15:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

A realidade conflituosa do Cáucaso é um desafio para o novo poder soviético em Last Crusaders, história de rivalidade e reconciliação entre muçulmanos e cristãos. Assistente de realização desse filme, Vakhtang Chvelidze procura, com Collective Farmer’s Hygiene, sensibilizar os trabalhadores agrícolas para novos cuidados sanitários e de limpeza.

A Difícil Liberdade 2
23 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Um pintor e um músico de rua em processo de inspiração e aproximação mútua. Filme de escola, The Morning Romance encena a sobrevivência da poesia no quotidiano difícil dos primeiros anos da independência georgiana. Vencida essa época distante, outra geração, sonhadora e pragmática, encara os seus desafios em When the Earth Seems to Be Light.

Enérgica Modernidade 1
23 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

O pequeno Jules junta-se aos revolucionários da Comuna de Paris e a sua presença, inseparável de um cachimbo, vale-lhe uma fama inesperada e perigosa. Em My Grandmother, uma grande repartição monstruosamente ineficaz é o habitat de um burocrata que, despedido, tenta reaver o emprego através de uma cunha. Banido, o filme só em 1968 foi reabilitado.

Sessão para Famílias
24 OUT / 15:00 / Cinema São Jorge

Dançar uma dança georgiana numa jangada, deixar-se ir no repuxo da fonte, proteger dos malfeitores a vaca Tchrela (é o nome dela), apreciar a noite veranil à luz do candeeiro, desvendar o mistério da floresta encantada, enfrentar o peixe gigante e fugir dele corajosamente: eis algumas das actividades propostas nesta sessão de obras-primas muito diversas, mas sempre deslumbrantes, da animação da Geórgia.

O Cáucaso Profundo 2
24 OUT / 15:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Magdana ganha a vida longe dos filhos, até estes recolherem um burro maltratado que pode mudar a sorte da família. Mas a injustiça paira próxima em Magdana’s Donkey, premiado em Cannes. Em Alaverdoba, a impiedade dos peregrinos de um festival religioso escandaliza um jornalista laico, que decide fazer algo para mudar as coisas.

Enérgica Modernidade 2
24 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
24 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Abandonada, grávida e hostilizada por todos, uma aldeã refugia-se na cidade, mas a sua desgraça não termina. Primeira longa-metragem georgiana de ficção, de Christine resta um excerto revelador do seu fascínio. Em My Grandmother, uma grande repartição oficial que se assemelha a um organismo pesado, com funcionários-órgãos ineficazes. Esperando em vão resposta ao seu requerimento, um operário perde a paciência e um burocrata perde o emprego, que tenta reaver através da protecção de uma avó, isto é, de uma cunha.

A Difícil Liberdade 3
24 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

A superação poética da solidão anima Fisherman and the Girl: com o pai pescador ausente no mar, a filha imagina-o em apuros, em luta com um peixe feroz. Em Corn Island, um avô e a sua neta, abecásios, cultivam uma ilha fluvial temporária, ameaçados pela situação militar tensa e pela natureza imprevisível. Grande Prémio em Karlovy Vary.

O Pequeno Oceano
26 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

O Mar (muito) Negro é o mar amistoso que banha a costa georgiana, aqui evocado em desenhos e impressões de dezenas de crianças. Já o filme de Kvirikadze narra o declínio de uma família cujo patriarca terá nadado uma distância prodigiosa, mas não documentada, no Mar Negro. Uma equipa de filmagem aborda essa parte da história submersa do país.

À Margem do Futuro
26 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
29 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Em A Journey to Sopot, dois marginais sem outra perspectiva que não seja sobreviver a cada dia forjam uma breve e frágil camaradagem. Filme de fim de curso de Nana Djordjadze, interdito e liberado em 1987 quando o seu Robinson Crusoe in Georgia conquistou Cannes. The Last Ones é uma ode a duas comunidades setentrionais isoladas e à sua cultura em vias de desaparecimento.

Arte que Se Expõe 1
27 OUT / 15:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Enquadrada pelo olhar de Paradjanov, a pintura de Niko Pirosmani (1862-1918) é organizada em capítulos que lhe visitam e entrelaçam as obras. Com Pirosmani, Guiorgui Chenguelaia abordou o dilema entre integridade artística e compromisso com o poder, num biopic muito livre e muito rigoroso. No papel principal, outro pintor fundamental: Avto Varazi.

Arte que Se Expõe 2
27 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Em guerra contra os nazis ou na paz de Kutaissi, onde reside, o escultor Aguli Eristavi só se interessa pela sua arte e pelo seu mármore de Paros com que fará uma obra grandiosa. Enquanto isso não sucede, vai acumulando bustos no cemitério local, onde o seu talento está sempre presente. Metáfora do impasse de uma geração após o Degelo, com um tom de delicado desencanto que o autor jamais perderia na sua análise mordaz da sociedade soviética.

O Cáucaso Cantado
28 OUT / 15:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Em Ra-Ni-Na, a cantilena do protagonista é corrigida por todos os desconhecidos com quem se cruza, com resultados hilariantes. O filme com que Iosseliani se propôs documentar o canto religioso pelo seu país é uma digressão visual fascinada pelas paisagens e pelos rostos, o trabalho e os corpos. Em The Saplings, avô e neto empreendem uma viagem cheia de peripécias em busca de sementes de certa pereira rara, a preservar como uma canção.

Progressos do Quotidiano Normal 1
28 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

O encontro romântico de um guarda de passagem de nível é perturbado por uma aparição insólita. No cinema de Kobakhidze, a realidade subvertida é subversiva. No filme de Gogoberidze, uma jornalista dedicada, convicta da importância do seu papel, descobre as limitadas expectativas que família e sociedade têm em relação a ela como mulher e profissional.

Progressos do Quotidiano Normal 2
29 OUT / 15:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

O amor à primeira vista, constante e não correspondido de um adolescente azeri por uma rapariga bielorrussa dois anos mais velha. O filme teve uma produção turbulenta e a versão final acabou interditada, não pelo seu tom por vezes excêntrico e suave erotismo, ou pela autoria de um argumentista caído em desgraça, mas pela desavença entre Essadze e um burocrata a propósito de uma cena secundária. Uma obra invulgar a redescobrir.

Notícias da Violência
29 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

A peste [Plague] nasce nos ambientes insalubres, muda as almas e uniformiza as vontades e a paisagem. O filme triunfou em Cannes em 1984. Em Bo-bo, largada numa qualquer guerra, uma bomba descobre a beleza do mundo e das obras dos homens. Em House of Others, um casal e seu filho mudam-se para uma aldeia deserta, sob o olhar apreensivo de outra família. Um conto doloroso sobre a desordem irremediável da geografia e dos seres depois da guerra na Abecásia.

Georgia on My Mind 1
30 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

O primeiro visitante do Ano Novo traz sorte a quem o recebe. A tradição da sua aldeia, agora abandonada, é evocada por Tchokheli em The First Foot. The Tower [A Torre] é um apontamento sobre o absurdo: local de encontro da aldeia de Ksuissi, depois da guerra de 2008 com a Rússia, ela continuou na Geórgia, ao contrário da aldeia. Em I Swam Enguri, a realizadora viaja clandestinamente até Sukhumi, sua cidade natal, agora capital de outro país.

O Cáucaso Profundo 3
30 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

O filme de Ugrekhelidze evoca a guerra civil na Abecásia, com a fuga dos residentes georgianos de Sukhumi, entre os quais muitas crianças, protagonistas desta animação de colagens. Em Dede (“mãe” na língua suana), a protagonista resiste à violência exercida sobre a mulher na sua região isolada da Suanécia. Mas as opções que tem são limitadas.

O Cáucaso Profundo 4
31 OUT / 19:00 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Tariel Mklavadze, príncipe violento e debochado, tenta apoderar-se de uma desconhecida sem olhar a consequências ou ao marido dela. Três futuros nomes de peso do cinema georgiano, os realizadores Mikaberidze e Kalatozov e a actriz Nato Vatchnadze, participam neste filme fascinante, cuja narrativa em flashback envolve o espectador numa reflexão sobre o enredo, as personagens e a opinião do autor.

Georgia on My Mind 2
31 OUT / 21:30 / Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema

Com On the Road, o cinema de Kobakhidze retoma o seu percurso e despede-se com um olhar expectante. Em Golden Thread, uma escritora octogenária tem de dividir a casa com uma nostálgica funcionária soviética, enquanto reaviva a relação com um antigo apaixonado. Estreado em Tbilissi em Dezembro último, o filme sonda os sentimentos e as razões de um país à procura do seu destino.