O cinema para uma luta anti-racista

Alargando o debate iniciado em Outubro, o Doclisboa propõe à SOS Racismo a construção e apresentação de um programa a decorrer em Janeiro no Padrão dos Descobrimentos

Com o advento da democracia, seria desejável que a “raça” e o legado colonial não permanecessem como marcadores políticos definidores do lugar do sujeito político na nossa vida colectiva. Infelizmente, estas circunstâncias ensombram as relações sociais, políticas e económicas e determinam a gestão democrática da nossa sociedade.
Uma espécie de jogo de espelho retrovisor mantém uma forte ligação umbilical entre o projeto político do passado e do presente. A circunstância política e social de hoje ancora-se ainda substancialmente no imaginário colectivo que herdámos do processo colonial, pois determina todas as relações de poder e o lugar do sujeito político racializado na nossa democracia. Através do espelho do presente, continuamos a espreitar pelo retrovisor do passado em busca de raízes e sentidos para a condição da nossa democracia hoje. Esta ligação com as dinâmicas contemporâneas herdadas dos processos históricos da construção da identidade nacional conflui na constituição do sujeito político nacional que tende a excluir o sujeito racializado do tecido nacional.
Com o olhar cinematográfico do passado e do presente, aliamos a contestação do velho mundo e a refutação do seu projecto de sociedade à proposta de um outro mundo. Pois o retrovisor do tempo que passou e o espelho do presente que nos liga ao passado esconjuram a distopia que sobreviveu às utopias de um mundo sem racismo.

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A aquisição de bilhete é feita através de donativo para a SOS Racismo por transferência bancária (PT50 001 000 006 661 650 000 134) ou via Paypal. Os bilhetes serão levantados no próprio dia, no local, após apresentação de comprovativo de donativo para doclisboa@doclisboa.org.
14 JAN / 18:00 / Padrão dos Descobrimentos

A sessão conta com a presença de Dércio Ferreira, co-realizador do filme.

15 JAN / 18:00 / Padrão dos Descobrimentos / 36’

“Racismo à Portuguesa” é uma série realizada por Joana Gorjão Henriques e Frederico Baptista que analisa as desigualdades raciais em Portugal, em diversas áreas, recolhendo testemunhos de quem se sente vítima de diversas formas de racismo.

A sessão será seguida de uma conversa com a realizadora.

16 JAN / 10:30 / Padrão dos Descobrimentos / 31’

“Mikambaru” é uma palavra inventada pelo alter-ego de um dos personagens. O filme faz uma reflexão sobre a diáspora africana pós-colonialista, e a relação com o “Outro”. Questiona as fronteiras mentais que se vão alterando de geração em geração, através do poema “Construir” de Alda Espírito Santo. É um conto de fadas de estereótipos, arquétipos e figuras religiosas que contam a sua própria história.

A sessão será seguida de uma conversa com a realizadora Vanessa Fernandes.

17 JAN / 10:30 / Padrão dos Descobrimentos / 20’

Dois artistas saem para treinar, não cabem nos padrões do seu bairro, da sua cidade, nem da sua cultura impostora. “Acredito que a vossa descrição tão sensível me remete à capacidade que temos, de nos desenvolvermos para nos mantermos vivos nesse território que nos foi “devolvido” pelos colonizadores…”, palavras do personagem Raça (Bruno Huca) ditas a Coragem (Isabél Zuaa). Este é um filme feito na periferia da “grande Lisboa” e discursa poética e assertivamente sobre ocupação territorial, pós-colonialismo e desigualdade social ainda vigente na cultura portuguesa.

18 JAN / 18:00 / Padrão dos Descobrimentos / 70’

Os pais vieram de uma antiga colónia portuguesa. Eles nasceram em Lisboa mas sentem-se mais cabo-verdianos. Saíra do bairro de infância para irem viver para o bairro social. Falam português mas também, desde muito cedo, aprenderam crioulo. Falam sobre a dualidade e a conflitualidade de pertencer a dois mundos que vivem de costas voltadas mas que, apesar de tudo, lhes pertencem como um só. “Nôs Terra” é um documentário centrado no processo de construção de um contra discurso protagonizado por jovens negros portugueses.

A sessão será seguida de uma conversa com a realizadora Ana Tica.

20 JAN / 18:00 / Padrão dos Descobrimentos / 20’

10 de Junho, praia de Carcavelos. Muitos jovens juntam-se ao sol. Há tensão e insultos. Depois chegará a polícia. Às 20h, as televisões apresentam ao país o “arrastão”, um crime massivo, centenas de assaltantes negros, em pleno Dia de Portugal. O noticiário torna-se narrativa apaixonada de um país de insegurança e “gangs”, terror e vigilância. A maré engole o desmentido policial da primeira versão dos incidentes e vários testemunhos sobre uma “inventona”. O filme passa em revista um crime que nunca existiu, a atitude dos media perante uma história explosiva e as consequências políticas e sociais de uma notícia falsa.