RETROSPECTIVA O DOCUMENTÁRIO EM MARCHA: CONTURBADOS ANOS 30 NA AMÉRICA DO NEW DEAL

“Claro que me lembro dos anos 1930, esses anos terríveis, conturbados, triunfantes, arrasadores. Não me lembro de outra década na história em que tenha acontecido tanto em tantas direcções. Houve mudanças violentas. Modelou-se o nosso país, remodelaram-se as nossas vidas, reconstruiu-se o nosso Governo, forçado a assumir funções, deveres e responsabilidades que nunca tivera e a que nunca poderá renunciar… Olhando para trás, a década parece ter sido tão cuidadosamente concebida como uma peça. Teve princípio, meio e fim, até um prólogo—1929 forneceu um contraste e uma dimensão trágica aos dez anos seguintes.”

John Steinbeck, “A Primer on the 30’s”, in Esquire, Junho de 1960

“Nestes tempos conturbados, o documentário foi um grande sucesso; satisfaz uma necessidade urgente de um meio de educação de massas e encontra um público muito receptivo, ávido da informação, instrução ou propaganda que este apresenta. O tempo, o espírito e a técnica estão bem alinhados: o documentário está em marcha.”

Lewis Jacobs, “Documentary Film Advances”, in Direction 3, n.º 2, Fevereiro de 1940

 

Nas profundezas da Grande Depressão nos EUA, uma aliança frágil de cineastas radicais lutou para criar um novo género de documentário social. Enfrentaram a crise criando um novo cinema da realidade, infundindo sentimentos nos factos, esbatendo a fronteira entre arte e propaganda, actualidade e drama, para documentar, divulgar e até tentar resolver as questões importantes de tempos extremamente conturbados. Se Roosevelt se comprometia com “justiça social através de acção social” por meio das políticas do New Deal do seu governo enquanto buscava outra América e se comprometia a dizer “toda a verdade, com franqueza e ousadia”, os cineastas faziam o mesmo, por vezes causando atrito. No fim da década, o termo “documentário” passara a ser amplamente usado, assinalando um novo desenvolvimento na história do cinema.
Documentário em Marcha analisa a América dos anos 1930 e o papel que uma forma recém-inventada de cinema não ficcional americano sem paralelo teve na tentativa que se verificou nessa década de enfrentar crises políticas e sócio-económicas nacionais e internacionais, contra o espectro do fascismo, populismo e guerra. Ao proporcionar um retrato de um período em que se esperava que o cinema pudesse ser utilizado como agente progressista de mudança, através de uma proposta cinematográfica e social, estes filmes exigem implicitamente que questionemos o potencial e os limites da função sócio-política do cinema, as fronteiras porosas entre a não ficção enquanto forma de arte e forma de propaganda e a ponte entre realidade e ideação que o documentário procura configurar. Com a distância do tempo, estes filmes proporcionam uma visita ao “prólogo” de quase 100 anos de experiência e invenção não ficcional, colocando a nu as suas fundações formais e ideológicas.
Concebido como uma narrativa cronológica, centrando-se num grupo restrito de cineastas (incluindo Joris Ivens, Leo Hurwitz, Herbert Kline, Irving Lerner, Pare Lorentz, Ralph Steiner, Paul Strand e Willard Van Dyke), o programa começa com os antecedentes e a influência da Rússia, passa para um diálogo entre as câmaras tornadas armas de colectivos de cineastas activistas revolucionários (Workers Film and Photo League (1930-6), NYKino (1935-7), Frontier Films (1937-41)) e produções ambiciosas do governo dos EUA e termina com uma coda de ressonâncias. Há três “recriações” históricas de projecções contemporâneas que servem de máquina do tempo.
Para a Film and Photo League, eles tinham “uma tarefa gigantesca, desafiando a mais institucionalizada de todas as artes burguesas com os seus monopólios monstruosos e uma rede gigantesca para distribuição em massa” (Sam Brody, 1934), servindo-se do cinema como “uma arma política muito importante, mais eficaz, nesta altura, do que carradas de balas e metralhadoras” (Leo Hurwitz, 1934).
Para o “cineasta de Roosevelt”, Pare Lorentz, o objectivo era criar filmes “produzidos pelo governo federal que se sustentassem nos [seus] méritos próprios e partilhassem a factura com as produções comerciais de Hollywood”, num campanha de relações públicas sem paralelo pensada para abordar os grandes problemas da época, as soluções do New Deal e a questão fundamental da identidade americana através de um cinema esteticamente sofisticado.
Das Workers Newsreels (jornais de actualidades dos trabalhadores) – que procuravam oferecer “factos alternativos” às narrativas dominantes – aos “documentários musicais” financiados pelo governo – que narravam o impacto destrutivo dos americanos na sua própria terra –, de dramas de trabalho organizado produzidos de forma independente a filmes patrocinados pela vanguarda que procuravam corrigir a desigualdade social por meio de híbridos formais inovadores e influentes de realidade e recriação, a retrospectiva revisita o cadinho de não ficção americana, para atestar uma década única de possibilidades e experiências tanto no cinema como na sociedade, as quais ainda se fazem sentir.
Nunca é demais referir a profundidade extrema da crise nos anos 1930, mas a sua combinação de desafios ressurge cada vez mais hoje em dia – populismo em ascensão e fractura social, o impacto sócio-económico das novas tecnologias, ameaças a estados-nação e ortodoxia política, catástrofe ecológica iminente e conflito internacional – e, se o cinema do nosso tempo procura moldar e influenciar a forma como mediamos as nossas próprias crises contemporâneas, olhar para paradigmas passados dá indícios de como dar forma ao nosso futuro, seja enquanto cineastas, cidadãos ou ambos.

Um agradecimento especial à Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, nossa parceira nesta retrospectiva, a Tanya Goldman e Tom Hurwitz por nos acompanharem em Lisboa, para partilhar o seu conhecimento valioso, e a todos os arquivos que nos emprestaram as suas preciosas cópias e materiais de conservação históricos, particularmente o MoMA.

 

Justin Jaeckle
Co-curador da retrospectiva em conjunto com a Cinemateca Portuguesa