Mensagem da Direcção

A liberdade de imaginar e a liberdade de descobrir

O Doclisboa está prestes a cumprir um quarto de século e a Apordoc, associação que lhe deu origem e que continua a organizá-lo, aproxima-se das três décadas de actividade. Estes números falam-nos menos do passado do que da responsabilidade de imaginar o futuro. Um festival como o Doclisboa não se mede apenas pela sua longevidade, mas pela capacidade de continuar a dar espaço a um cinema inquieto, de renovar o encontro entre filmes e espectadores e de responder a um mundo em permanente transformação sem abdicar da sua identidade.

Há muito que o Doclisboa deixou de entender o documentário como um género ou um território cerrado. Procurou antes acompanhar – e muitas vezes antecipar – a forma como o cinema reinventa as maneiras de olhar e compreender o presente, acolhendo obras que recusam fronteiras estabelecidas e afirmam a potência de imaginar. Esta edição parte da mesma convicção: a diversidade do cinema é inseparável da diversidade do mundo. Programar é, por isso, propor novas geografias, novas durações, novos pontos de vista.

Vivemos um tempo de circulação incessante de imagens, não de maior diversidade. Os modos de produção, exibição e recepção de cinema mudaram, a atenção tornou-se um bem raro e as salas perdem espaço num contexto dominado por plataformas e algoritmos. É também por isso que um festival como este é cada vez mais importante. O Doclisboa não apenas exibe filmes: oferece-lhes contexto, relação e tempo; faz da programação um gesto crítico e, porque não?, artístico; cria comunidade em torno de uma experiência colectiva que nenhuma outra forma de circulação pode substituir. Mantemos intacta a ideia de que ainda é possível um festival de cinema cujo centro seja o cinema. Numa era em que quase tudo nos é imposto como se fosse sugerido, a descoberta continua ser um acto de liberdade. E há muito para descobrir aqui.

Este ano, voltamos a reforçar a presença de produções portuguesas e a dimensão internacional do Doclisboa, mantemos a aposta numa retrospectiva singular, como é a dedicada a Lino Brocka, e em percursos autorais como os dos artistas convidados dos Riscos, Sophie Roger e John Torres; consolidamos uma Competição Internacional feita exclusivamente de estreias mundiais, internacionais e europeias, mas acima de tudo de belíssimos filmes; e pontuamos o programa de momentos únicos que convidamos cada um a descobrir à sua maneira. Algumas pistas: o foco dedicado à Palestina quando o genocídio e, já agora, o culturcídio de um povo prossegue à vista de todos; o olhar político do brasileiro Miguel Antunes Ramos para tentar entender esse país irmão no rescaldo das suas eleições; a homenagem aos irrepetíveis Angela Ricci Lucchi e Yervant Gianikian, o regresso de William Greaves um ano depois; o gesto de despedida de Alain Cavalier; e, claro, o filme-guerrilha de Edgar Pêra a abrir o programa.

O Doclisboa é um festival artístico e põe na defesa da arte e da sala de cinema, na potência, na riqueza, na complexidade e até na simplicidade do gesto cinematográfico, muita da sua força e da sua crença. Queremos contribuir para que, em Portugal, seja mostrado cinema em todas as suas possibilidades, autónomo das fórmulas que nos vêm impondo ao longo de décadas, dos filmes que o circuito comercial repete à exaustão, do cânone que, pela sua natureza, gosta de permanecer inamovível. Criamos ainda oportunidades de encontro para profissionais de cinema através do Nebulae, dos seus laboratórios e seminários e projectos em desenvolvimento. Mais do que acompanhar o cinema contemporâneo, queremos continuar a ser um lugar onde é possível descobri-lo, onde autores emergentes convivem com filmografias já estabelecidas e onde o cinema português dialoga com o resto do mundo.

Num mundo em guerra, num país em que as nossas liberdades estão sob ameaça e a democracia sob ataque, num quotidiano em que o discurso de ódio, de exclusão e de extrema-direita se vai normalizando, acreditamos num festival onde permaneçam bem vivas a curiosidade, a sede de conhecimento, o encontro e o debate de ideias. O Doclisboa é um festival em marcha, uma história a escrever-se. Foi com essa confiança no cinema e no valor das imagens – e naquilo que elas continuam a permitir ver, pensar e partilhar – que imaginámos mais esta edição. Venham descobri-la connosco.

 

Hélder Beja
Director do Doclisboa

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