Estreia na realização de Juliette Binoche e filmes com Kate Bush, Elza Soares, Salman Rushdie e Slavoj Žižek nos primeiros destaques do Doclisboa 2026

Doclisboa 2026

Com a 24ª edição do Doclisboa a aproximar-se, desvendamos alguns dos filmes das secções Heart Beat e Da Terra à Lua, num cruzamento intrigante entre o cinema e as outras artes que o inspiram.

O Doclisboa regressa de 15 a 25 de Outubro e entre os primeiros destaques da programação há vários nomes incontornáveis. Na secção Heart Beat, espaço de celebração das diferentes expressões artísticas, o festival apresenta a estreia de Juliette Binoche atrás da câmara, com In-I In Motion, filme em que revisita a sua intensa colaboração com o bailarino e coreógrafo Akram Khan, numa reflexão sobre a criação artística, o risco e a transformação pessoal.

Como de costume, a história do cinema está presente no festival em Vittorio De Sica – Staging Life, de Francesco Zippel, retrato íntimo do eterno realizador e actor italiano cuja obra transformou o nosso olhar sobre a realidade de forma simultaneamente crítica, política e apaixonada. Outro grande cineasta é revisitado em Orson Welles: The One-Man Band, de Oja Kodar e Vassili Silovic. Trata-se de um filme que reúne imagens raras de projectos inacabados de Welles, dando a ver fragmentos e sonhos de um dos grandes revolucionários da história do cinema.

Artista revolucionário ele próprio, o escocês Douglas Gordon, vencedor do Turner Prize, é o centro de uma obra que replica o seu nome: Douglas Gordon by Douglas Gordon, de Finlay Pretsell. O filme leva-nos a descobrir, na sua intimidade e relação turbulenta com o mundo e a criação, um dos artistas visuais que transformaram a história da arte nas últimas décadas do século XX.

Do universo musical, o Heart Beat mostra Nino – A Film About Nino Rota, de Walter Fasano. Mais conhecido pelo seu trabalho como montador em filmes como Call Me by Your Name (2017), Fasano revela-se aqui também enquanto realizador. O filme revisita a vida e obra de Nino Rota, compositor italiano que elevou ainda mais os universos cinematográficos de autores como Fellini e Coppola. Narrado pelo músico britânico Sting, Nino explora as ligações pessoais, artísticas e espirituais de uma carreira inteiramente dedicada à música.

In-I In Motion (2026)
In-I In Motion (2026)

Chegam-nos ainda dois filmes com duas grandes vozes, duas mulheres marcantes, de diferentes tempos, espaços e estilos: Elza, de Eryk Rocha, e Kate Bush – The Timeless Genius, de Sonia Gonzalez. Em Elza, Rocha traça o retrato de Elza Soares, artista cuja voz e incessante capacidade de reinvenção atravessaram gerações, carregando consigo uma força vital que recusou deixar-se condenar por um país profundamente desigual. Já Kate Bush – The Timeless Genius revisita os primeiros anos e a carreira da artista pioneira, explorando a influência que a sua música e o seu espírito independente exerceram e continuam a exercer na cultura pop, até ao encontro com os mais novos em Stranger Things.

Da música ao desporto, mais dois títulos incontornáveis desta edição: a personalidade e o percurso de um futebolista com um olhar singular sobre a vida estão no centro de Cantona, de David Tryhorn e Ben Nicholas, que explora a transformação de um jogador considerado indomável num ícone do Manchester United. No seguimento da retrospectiva de William Greaves apresentada no ano passado pelo Doclisboa e a Cinemateca Portuguesa, trazemos dois filmes fundamentais do autor só agora disponíveis. The Fight [The William Greaves Directors Cut],revisita o histórico combate de 1971 entre Muhammad Ali e Joe Frazier, captando um confronto que expôs as profundas divisões políticas e raciais dos Estados Unidos da América. Terminado postumamente em 2026 por David Greaves, filho do cineasta, Once Upon a Time in Harlem é uma cápsula temporal fascinante que nos leva a uma soirée na casa de Duke Ellington em 1972, a uma reunião das grandes figuras da arte e da cultura que construíram a chamada Harlem Renaissance.

Os guias do pervertido Slavoj Žižek voltam ao Doclisboa, agora com The Pervert’s Guide to Utopias, de Sophie Fiennes, reencontro entre a realizadora e o filósofo Žižek. Desta vez, a dupla interroga as utopias que moldam a nossa ideia de sociedade e de futuro. Como ele mesmo diz no filme: “O nosso dever é ver as coisas como elas são e, para isso, precisamos do cinema”.

Siri Hustvedt – Dance Around the Self, de Sabine Lidl, conta a história de vida da escritora, acompanhando-a desde os seus primeiros anos em Nova Iorque, traçando um retrato da sua vida e percurso literário. Hustvedt, nome maior do pensamento contemporâneo, foi companheira de outro grande vulto da literatura entretanto já desaparecido, Paul Auster, também ele bem presente no filme.

Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie (2016)
Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie (2016)

Ainda na cena literária, em Da Terra à Lua mostramos Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie, de Alex Gibney, sobre o atentado com arma branca sofrido pelo autor de Os Versículos Satânicos. O filme inspira-se nas memórias autobiográficas de Rushdie e acompanha a sua recuperação, focando-se no processo de reconstrução do seu espírito e da esperança no futuro.

Sempre dedicado a histórias de diferentes lugares e tempos, o programa de Da Terra à Lua propõe ainda Thanks for Coming, de Alain Cavalier, despedida do grande realizador que aos 94 anos é um dos nomes maiores do cinema francês. Este filme-diário acompanha o quotidiano, os gestos e as reflexões de Cavalier, numa derradeira incursão pelo cinema como espaço de intimidade, memória e partilha.

Nos próximos dias serão reveladas mais novidades da programação do festival.

Em Outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa.

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