Com a 24ª edição do Doclisboa a aproximar-se, desvendamos alguns dos filmes das secções Heart Beat e Da Terra à Lua, num cruzamento intrigante entre o cinema e as outras artes que o inspiram.
O Doclisboa regressa de 15 a 25 de Outubro e entre os primeiros destaques da programação há vários nomes incontornáveis. Na secção Heart Beat, espaço de celebração das diferentes expressões artísticas, o festival apresenta a estreia de Juliette Binoche atrás da câmara, com In-I In Motion, filme em que revisita a sua intensa colaboração com o bailarino e coreógrafo Akram Khan, numa reflexão sobre a criação artística, o risco e a transformação pessoal.
Como de costume, a história do cinema está presente no festival em Vittorio De Sica – Staging Life, de Francesco Zippel, retrato íntimo do eterno realizador e actor italiano cuja obra transformou o nosso olhar sobre a realidade de forma simultaneamente crítica, política e apaixonada. Outro grande cineasta é revisitado em Orson Welles: The One-Man Band, de Oja Kodar e Vassili Silovic. Trata-se de um filme que reúne imagens raras de projectos inacabados de Welles, dando a ver fragmentos e sonhos de um dos grandes revolucionários da história do cinema.
Artista revolucionário ele próprio, o escocês Douglas Gordon, vencedor do Turner Prize, é o centro de uma obra que replica o seu nome: Douglas Gordon by Douglas Gordon, de Finlay Pretsell. O filme leva-nos a descobrir, na sua intimidade e relação turbulenta com o mundo e a criação, um dos artistas visuais que transformaram a história da arte nas últimas décadas do século XX.
Do universo musical, o Heart Beat mostra Nino – A Film About Nino Rota, de Walter Fasano. Mais conhecido pelo seu trabalho como montador em filmes como Call Me by Your Name (2017), Fasano revela-se aqui também enquanto realizador. O filme revisita a vida e obra de Nino Rota, compositor italiano que elevou ainda mais os universos cinematográficos de autores como Fellini e Coppola. Narrado pelo músico britânico Sting, Nino explora as ligações pessoais, artísticas e espirituais de uma carreira inteiramente dedicada à música.

Chegam-nos ainda dois filmes com duas grandes vozes, duas mulheres marcantes, de diferentes tempos, espaços e estilos: Elza, de Eryk Rocha, e Kate Bush – The Timeless Genius, de Sonia Gonzalez. Em Elza, Rocha traça o retrato de Elza Soares, artista cuja voz e incessante capacidade de reinvenção atravessaram gerações, carregando consigo uma força vital que recusou deixar-se condenar por um país profundamente desigual. Já Kate Bush – The Timeless Genius revisita os primeiros anos e a carreira da artista pioneira, explorando a influência que a sua música e o seu espírito independente exerceram e continuam a exercer na cultura pop, até ao encontro com os mais novos em Stranger Things.
Da música ao desporto, mais dois títulos incontornáveis desta edição: a personalidade e o percurso de um futebolista com um olhar singular sobre a vida estão no centro de Cantona, de David Tryhorn e Ben Nicholas, que explora a transformação de um jogador considerado indomável num ícone do Manchester United. No seguimento da retrospectiva de William Greaves apresentada no ano passado pelo Doclisboa e a Cinemateca Portuguesa, trazemos dois filmes fundamentais do autor só agora disponíveis. The Fight [The William Greaves Directors Cut],revisita o histórico combate de 1971 entre Muhammad Ali e Joe Frazier, captando um confronto que expôs as profundas divisões políticas e raciais dos Estados Unidos da América. Terminado postumamente em 2026 por David Greaves, filho do cineasta, Once Upon a Time in Harlem é uma cápsula temporal fascinante que nos leva a uma soirée na casa de Duke Ellington em 1972, a uma reunião das grandes figuras da arte e da cultura que construíram a chamada Harlem Renaissance.
Os guias do pervertido Slavoj Žižek voltam ao Doclisboa, agora com The Pervert’s Guide to Utopias, de Sophie Fiennes, reencontro entre a realizadora e o filósofo Žižek. Desta vez, a dupla interroga as utopias que moldam a nossa ideia de sociedade e de futuro. Como ele mesmo diz no filme: “O nosso dever é ver as coisas como elas são e, para isso, precisamos do cinema”.
Siri Hustvedt – Dance Around the Self, de Sabine Lidl, conta a história de vida da escritora, acompanhando-a desde os seus primeiros anos em Nova Iorque, traçando um retrato da sua vida e percurso literário. Hustvedt, nome maior do pensamento contemporâneo, foi companheira de outro grande vulto da literatura entretanto já desaparecido, Paul Auster, também ele bem presente no filme.

Ainda na cena literária, em Da Terra à Lua mostramos Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie, de Alex Gibney, sobre o atentado com arma branca sofrido pelo autor de Os Versículos Satânicos. O filme inspira-se nas memórias autobiográficas de Rushdie e acompanha a sua recuperação, focando-se no processo de reconstrução do seu espírito e da esperança no futuro.
Sempre dedicado a histórias de diferentes lugares e tempos, o programa de Da Terra à Lua propõe ainda Thanks for Coming, de Alain Cavalier, despedida do grande realizador que aos 94 anos é um dos nomes maiores do cinema francês. Este filme-diário acompanha o quotidiano, os gestos e as reflexões de Cavalier, numa derradeira incursão pelo cinema como espaço de intimidade, memória e partilha.
Nos próximos dias serão reveladas mais novidades da programação do festival.