História Breve do Desaparecimento

No âmbito da retrospectiva Anastasia Lapsui & Markku Lehmuskallio, o Doclisboa apresenta Anna (1997), o primeiro filme assinado por ambos os realizadores, no dia 24 de Outubro, terça-feira, às 22h15, no Cinema São Jorge. O curador da retrospectiva, Boris Nelepo, descreve em detalhe o lugar desta obra no contexto da filmografia da dupla.

Eis três fotogramas do filme Anna. A protagonista representa os nganasanes, o segundo povo da história a assentar nas latitudes altas. Hoje, restam menos de oitocentos. Lapsui e Lehmuskallio empregam frequentemente o efeito de dissolução nos filmes para fazer uma pessoa desaparecer no ar. A técnica pode ser simples, mas está carregada de sentimento, sobretudo no contexto do seu projecto artístico como um todo.

Em 1996, Anna, acompanhada pelos realizadores, visitou uma escola abandonada e o escritório da quinta de veados estatal onde trabalhara como secretária da célula local do Partido Comunista. A escola é um dos cenários chave da dupla de cineastas. É o local onde os seus personagens, à semelhança da própria Anastasia Lapsui quando era criança, foram levados das suas tendas e russificados à força, mas onde também receberam uma educação. Os dois edifícios decadentes de Anna são um posfácio amargo do projecto educativo da União Soviética, que eliminou costumes indígenas antigos antes de se dissolver ela própria, deixando estas pessoas sem a sua nova identidade, que desapareceu com a chegada do capitalismo.

Dada a sua natureza, o cinema regista pessoas no processo de desaparecimento, mas a câmara de Lapsui e Lehmuskallio viu-se repetidas vezes em lugares onde ainda conseguiam preservar o mundo transitório, pelo menos em filme. Os lapões nunca mais viveriam a vida retratada em Skierri – vaivaiskoivujen maa (1982) e os nenetses também não, como se vê no último ano de existência da União Soviética em Poron hahmossa pitkin taivaankaarta… (1993).

No seu livro Chto ostalos’ za kadrom [O que ficou nos Bastidores], Anastasia Lapsui recorda as palavras de Lehmuskallio acerca da concepção de Minä olen: “Quando comecei a trabalhar no filme, penetrei cada vez mais profundamente na história. À primeira vista, a arte deles parecia consistir em esculturas frias, imagens com um século. Os museus deixaram a sua marca nestas obras, que agora servem de pontos de referência. Eu só as podia ver e contemplar do outro lado da vitrina. Não lhes podia tocar, não sentia o calor deixado pelos seus criadores.”

Não será este um ponto essencial para compreender estes filmes? As imagens registadas pelos realizadores são um verdadeiro tesouro para eles, uma lembrança de um paraíso perdido, de mais um desaparecimento.

Talvez seja por isso que, nos filmes dos últimos anos, Lapsui e Lehmuskallio revisitam tantas vezes os seus trabalhos mais antigos, como se estivessem a percorrer o seu próprio museu visual repleto de rostos vivos. Sim, rostos: se falamos de técnicas, uma pretensão de importância fulcral para os realizadores é filmar retratos, olhar para os seus personagens e memorizar os seus nomes. E também continuar a voltar a eles enquanto companheiros e amigos e talvez até colaboradores. No recente Anerca, elämän hengitys (2020), encontramos Anna novamente: inalterada, desaparecida há muito tempo.

Boris Nelepo