No âmbito da retrospectiva Anastasia Lapsui & Markku Lehmuskallio, o Doclisboa apresenta Seven Songs from the Tundra (2000), a primeira ficção em língua nenetse, no dia 25 de Outubro, quarta-feira, às 22h15, no Cinema São Jorge. Este conto de Anastasia Lapsui inspirou o capítulo “Deus” do filme.
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Antes do colapso da União Soviética, não havia quase lugar nenhum no país sem um monumento ao comandante do proletariado mundial. O modesto município de Nyda também ostentava uma estátua imponente de corpo inteiro de Vladimir Lenine. Nós, alunos de segundo e terceiro ciclo, todos membros dos Jovens Pioneiros e do Komsomol, plantámos algumas árvores e colocámos uma cerca em torno do monumento, para proteger a relva e a folhagem das vacas. Orgulhosos do nosso pequeno parque, deliciávamo-nos a observar os salgueiros e os amieiros a florescer e a ganhar força. Era ali que decorriam todas as cerimónias dos Jovens Pioneiros. Na altura, ainda andava na escola, sempre bem vestida com o meu uniforme de avental branco. Passados estes anos todos, ainda me lembro de uma história do nosso grupo de Jovens Pioneiros, que exibia com orgulho o nome de Zoya Kosmodemyanskaya, a mártir adolescente e heroína da União Soviética.
Lembro-me de nós, alunos do Internato de Nyda, alinhados em formação. O director usou da palavra. Éramos demasiado novos para perceber bem o seu longo discurso. Então, fez-nos dizer várias vezes em voz alta todos juntos: “Lenine não é um deus! Lenine é o comandante do proletariado mundial!”
Quando cresci um pouco e me tornei jornalista de rádio, o meu conterrâneo, o velho Tapoy Salinder, explicou-me o motivo daquela concentração. Lembrava-se que ele e os amigos – Arka Tior, um veterano da Segunda Guerra Mundial que defendeu Leninegrado durante o cerco, e Tokhe Valak, um indígena da tundra que trabalhara na frente doméstica – tinham feito um sacrifício diante da estátua de Lenine antes da temporada de pesca da Primavera e do Verão.
“Trouxemos chá quente e chávenas de casa. Naturalmente que também era preciso alguma vodca para uma ocasião sagrada. Dispusemos a comida em pratos, vertemos a vodca em copos e o chá em chávenas. Colocámos tudo mesmo à frente de Lenine, para que ele conseguisse cheirar a comida”, recordou Tapoy Salinder.
“Lembras-te da batalha de Leninegrado, da luta pela aldeia de Vesely?”, perguntou-lhe Arka Tior de repente.
“Só Deus sabe como saímos dali vivos. Lembro-me do sítio,” disse eu.
“Antes de cada batalha, vertia metade da minha dose diária de vodca no chão,” disse Arka. “Rezava a ele e aos nossos deuses. Afinal de contas, era a cidade dele que estávamos a defender. Talvez estivesse algures por perto, a caminhar no terreno onde estavam as nossas trincheiras.”
“Quem de entre nós não rezou?”, perguntei eu. “Rompemos o cerco com o nome dele nos lábios. Acho que a alma dele nos estava a guiar.”
“Enquanto nós, cá atrás, pescávamos noite e dia, enviando o melhor peixe aos tropas e dizendo ‘tudo pela linha da frente, tudo pela vitória’”, acrescentou Tokhe Valak. “As mulheres faziam roupas quentes: botas de pele, casacos, chapéus de pêlo.”
“Então, estávamos ali sentados tranquilamente, mergulhados nas nossas memórias. Passado algum tempo, estava na hora de começar a celebração. De acordo com os velhos costumes, claro que se oferece o primeiro copo de vodca àquele a quem se faz o sacrifício. Estávamos sentados em redor da estátua de Lenine, por isso era ele. Tentei levar o copo aos lábios do comandante, para que ele recebesse a oferenda das minhas próprias mãos, mas não era suficientemente alto,” recordou Tapoy com um sorriso.
“Verte no chão e vai chegar-lhe daí. A alma dele está entre nós”, tranquilizou-me Valak.
“Como poderia ser de outra forma,” diz Arka Tior. “Ele vê todos os vales, montanhas, mares e rios. A sua visão chega a toda a União Soviética.”
Enquanto nos sentávamos para comer e vertíamos qualquer coisa à saúde do grande Lenine, o primeiro secretário do comité local do Partido, o camarada Antonov, ia a passar e aproximou-se de nós.
“O que é que estão aqui a fazer?”, inquiriu Antonov alegremente. “As vossas mulheres correram-vos das tendas?”
“Venha sentar-se connosco. Nós, os nenetses, fazemos sempre sacrifícios aos nossos deuses antes da temporada de pesca da Primavera. Pedimos-lhes ajuda e apoio, para que haja peixe em abundância, o tempo esteja calmo e as nossas famílias saudáveis. Ele é um deus! Um deus de todas as pessoas na Terra,” começou Arka Tior a dizer ao secretário, que não compreendia. Ele era o que melhor falava russo dentre nós.
“Ele não é um deus. É o comandante do proletariado do mundo,” disse o Antonov.
“Proler, proletar… Pode dizer isso no seu posto. O que eu vou dizer é o seguinte. Aqui o Tapoy pode confirmar as minhas palavras. Ele é mais do que um amigo, é-me mais querido do que os meus próprios irmãos. Eu e ele defendemos a cidade do Grande Lenine lado a lado. Agarrámo-nos um ao outro, partilhámos o pão de cada dia um com o outro. Foi duro. Mas, por muito que nos esforcemos, é preciso outra coisa para superar o inimigo. E finalmente a espera acabou! Os oficiais disseram-nos: ‘Acabámos de receber a ordem que esperávamos. Hoje, vamos romper o cerco a Leninegrado!’ Lançámo-nos ao combate sob fogo constante, bramindo ‘viva’, sem nos perdermos de vista enquanto corríamos: quem sabe o que pode acontecer. O meu amigo e conterrâneo Tapoy corre à minha frente. De repente, agita os braços como se me estivesse a chamar. Chego ao pé dele e ele cai ao chão. Foi perto de Vesely,” disse Arka Tior. “Que posso fazer para ajudá-lo? O meu companheiro nenetse está a morrer. O meu coração encheu-se de sangue e ficou tudo turvo à minha frente. Como posso ajudá-lo? Só posso rezar. Invoquei os deuses todos. E, depois, apercebi-me de a quem tinha de rezar. Gritei para o céu, para que ele ouvisse: ‘Querido Lenine, a tua alma é toda-poderosa, o teu coração é generoso, ajuda-o, para que continue a respirar!’ Por isso, está a ver agora? E você aqui a falar de…”
“Eu percebo, eu percebo, mas não façam mais isso. E se todos os pescadores começarem a vir para aqui fazer o mesmo? Lenine não é um deus, é um comandante.”
“Achávamos que Lenine era o verdadeiro deus,” dissemos nós, tirando os pratos do pedestal.
E, então, as árvores aparentemente sentiram que sopravam outros ventos, perderam o viço e morreram. A areia prevaleceu sobre a relva verde de Verão.
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Anastasia Lapsui
Em Severyane, n.º 2, 2015, Yamal. Traduzido do russo por Andrei Kartashov.
Este conto inspirou o capítulo “Deus” do filme Seitsemän laulua tundralta [Seven Songs from the Tundra].