UMA CRÓNICA DE DESPEDIDAS

Markku Lehmuskallio nasceu em 1938, na Finlândia, filho de um capitão de navio. Enquanto trabalhava como técnico florestal, entre 1964 e 1969, envolveu-se com o cinema, fazendo filmes educativos. Deixou o emprego para continuar a realizar filmes industriais antes de fazer a sua primeira curta-metragem independente, em 1973. Também foi director de fotografia de Pulakapina (1977), de Mikko Niskanen.

A sua primeira longa-metragem, Korpinpolska (1980), entrou na competição principal da Berlinale, um sucesso internacional raro para o cinema finlandês da altura. Fez mais três longas-metragens na década seguinte, incluindo uma em lapão e outra em língua gestual. Peter von Bagh descreveu-o como “o observador cinematográfico perfeito da natureza e de estilos de vida alternativos”.

Lehmuskallio visitou a União Soviética no final dos anos 1980, para trabalhar no projecto antropológico Minä olen. Foi aí que conheceu Anastasia Lapsui. Indígena nenetse, nascida em 1944 numa família nómada na Península de Iamal, ela fora a primeira jornalista radiofónica indígena na região. Tornaram-se parceiros na vida e no cinema e dedicaram a vida e o trabalho em conjunto aos povos indígenas do Norte.

A saga nenetse ocupa um lugar especial na sua filmografia. Lapsui pôde descrever o seu povo de uma perspectiva anteriormente impensável. Barry Barclay, cineasta neozelandês de origem maori, cunhou o termo Quarto Cinema para descrever o cinema indígena, que se pode usar para classificar as colaborações entre Lapsui e Lehmuskallio. O nome da sua produtora, Giron, significa, em lapão, “perdiz”.

A diversidade de povos e culturas retratados nos seus filmes corresponde à riqueza de abordagens à arte do cinema. Esta primeira retrospectiva internacional integral, que celebra 50 anos de filmes de Lapsui e Lehmuskallio, está longe de ser monótona, apresentando um conjunto de possibilidades do cinema documental e seus métodos: documentário clássico, elementos de ficção, animação, estudo antropológico e viagens visuais poéticas. Começando por serem herdeiros de Flaherty, criaram o seu próprio universo, que não tem muitos equivalentes.

Poder-se-ia recordar o trabalho de António Reis e Margarida Cordeiro, que preservaram o que estava em desaparecimento e procuraram sempre formas novas de expressão cinematográfica. Nos filmes de Lapsui e Lehmuskallio, pinturas de Cranach e arte rupestre, contos de fadas nenetses e versos do poeta japonês Tsurayuki, a música de Meredith Monk e rap lapão coexistem em pé de igualdade. Tal como a dupla portuguesa, lidam com a cultura e a arte sem as ver sob o prisma institucional ou separadas entre as alegadamente ingénuas e as profissionais. Pelo contrário, a arte é uma necessidade, uma parte da vida e do destino humanos. Talvez também seja, de certa forma, um contraponto à destruição trazida pela humanidade.

Um agradecimento especial a Olaf Möller, sem o qual não teria surgido a ideia para esta retrospectiva. Obrigado também a Andrei Kartashov, Ekaterina Kalinina, Aleksei Nelepo, Graham Swon, Antti Alanen, Timo Malmi e Valtteri Lepistö pela ajuda e pelo apoio. Os livros Kadonnutta paratiisia etsimässä [À Procura do Paraíso Perdido] (2009), de Sakari Toiviainen, e a autobiografia de Anastasia Lapsui, Chto ostalos’ za kadrom [O que ficou nos Bastidores] (2007), constituíram fontes de informação indispensáveis na investigação do cinema de Lapsui e Lehmuskallio, tal como os escritos de Caroline Damiens e Kathleen Osgood.

Boris Nelepo
Curador da retrospectiva