Patrocinado pela Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA), o Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis integra o Doclisboa desde 2021. O prémio distingue documentários que exploram a dignidade humana num mundo do trabalho em transformação, abordando temas como a saúde mental e física, a segurança e os novos desafios nos locais de trabalho.
No ano passado, entrevistámos William Cockburn, Director Executivo da EU-OSHA, para compreender melhor de que forma o cinema documental pode contribuir para a promoção da segurança e saúde no trabalho (SST) e qual a importância deste prémio na sensibilização para os riscos associados ao mundo laboral.
Este ano, voltámos a conversar com Cockburn para compreender o impacto do cinema documental, e desta parceria, na humanização, visibilidade e evolução dos debates em torno da segurança e saúde no trabalho.
1. A forma como trabalhamos mudou radicalmente nos últimos anos, trazendo novos desafios para a nossa saúde física e mental. De que forma o cinema documental, ou este prémio, pode ajudar a dar visibilidade a realidades laborais invisíveis ou emergentes que as estatísticas não conseguem captar?
As estatísticas são essenciais para identificar tendências em matéria de segurança e saúde no trabalho (SST), mas não contam as histórias reais por detrás dos números. O cinema documental dá vida a essas realidades, mostrando as histórias humanas por detrás dos dados: o stress provocado pela insegurança laboral, o impacto dos problemas de saúde mental, as pressões da digitalização ou as experiências dos trabalhadores que se adaptam às alterações relacionadas com o clima.
O Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis distingue documentários relacionados com o trabalho que se centram nas pessoas num mundo laboral em transformação e utiliza o cinema como ferramenta para sensibilizar e estimular o debate em torno da SST.
2. O Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis procura promover locais de trabalho mais seguros e humanos. Do ponto de vista da EU-OSHA, qual tem sido o verdadeiro impacto da linguagem cinematográfica na sensibilização dos decisores políticos e da sociedade em geral?
O cinema tem uma capacidade única de estabelecer uma ligação com o público, tanto a nível emocional como intelectual. Um documentário marcante pode transformar aquilo que poderia parecer uma questão técnica ou política numa história profundamente pessoal, que as pessoas recordam e discutem.
Ao longo dos anos, temos observado como os filmes apoiados através do Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis têm gerado conversas entre trabalhadores, empregadores, decisores políticos e o público em geral. Criam um terreno comum para discutir questões complexas como a precariedade laboral, a migração, a saúde mental ou as transformações tecnológicas.
Ao dar um rosto humano a estas questões, o cinema documental contribui para que a SST continue a fazer parte de debates sociais e políticos mais amplos. Desde 2009, o prémio tem ajudado a EU-OSHA a chegar a públicos mais vastos e a apoiar actividades de sensibilização em toda a Europa, através de sessões e debates organizados pela sua rede de Pontos Focais nacionais.
3. A segurança e a saúde no trabalho são direitos humanos fundamentais, mas são frequentemente negligenciadas. De que forma a parceria continuada com o Doclisboa reforça a missão da EU-OSHA de colocar as pessoas no centro do debate sobre o futuro do trabalho?
A nossa parceria com o Doclisboa é valiosa porque aproxima duas áreas que nem sempre se cruzam: a segurança e saúde no trabalho e a cultura. O futuro do trabalho é muitas vezes discutido em termos de tecnologia, produtividade ou transformação económica. Embora estas questões sejam importantes, é igualmente essencial perguntar de que forma o trabalho afecta a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas.
Através desta parceria, conseguimos chegar a públicos para além da comunidade tradicional da SST e incentivar uma reflexão mais ampla sobre como deverá ser, nos próximos anos, um trabalho digno, seguro e saudável.
O cinema documental dá visibilidade a vozes que nem sempre são ouvidas e ajuda a colocar a dignidade humana no centro da discussão. O prémio procura especificamente filmes que explorem os direitos dos trabalhadores, os riscos nos locais de trabalho e as consequências humanas das transformações sociais, económicas e políticas.
4. Ao longo das várias edições do prémio no festival, que mudanças tem observado na forma como os cineastas abordam as questões laborais?
Uma das evoluções mais marcantes tem sido a crescente diversidade de perspectivas e temas. Os filmes das primeiras edições centravam-se frequentemente nos riscos laborais tradicionais ou em contextos industriais. Embora estes temas continuem a ser importantes, os cineastas exploram hoje realidades cada vez mais complexas e interligadas.
Vemos filmes que abordam a saúde mental, a migração, a desigualdade, as alterações climáticas, a digitalização, o trabalho através de plataformas digitais e as novas formas de emprego. Existe também uma maior atenção às narrativas pessoais e às experiências de grupos frequentemente sub-representados, incluindo trabalhadores migrantes, mulheres, jovens trabalhadores e trabalhadores mais velhos.
Esta evolução reflecte a própria transformação do mundo do trabalho. À medida que os riscos profissionais mudam, os cineastas ajudam-nos a compreender não apenas onde as pessoas trabalham, mas também de que forma o trabalho molda identidades, comunidades e a vida quotidiana. Estes temas estão estreitamente alinhados com as questões que o Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis tem procurado cada vez mais incentivar, incluindo os riscos psicossociais, as alterações climáticas, a digitalização e a precariedade laboral.
5. Entre os filmes nomeados deste ano, existe alguma obra ou perspectiva geográfica ou social que considere particularmente urgente para o público e para os profissionais presentes no festival?
O que é particularmente encorajador na selecção deste ano é a sua diversidade. Os filmes nomeados abordam o trabalho a partir de diferentes perspectivas culturais, sociais e geográficas, da Europa ao Médio Oriente, passando pela Ásia e pela América Latina, e tratam temas como o bem-estar mental, a precariedade, a migração e os direitos das mulheres, todos eles relevantes na Europa e para além dela.
Em vez de destacar um único título, salientaria a forte presença de temas relacionados com a saúde mental, a inclusão social e a transformação da natureza do trabalho nas sociedades contemporâneas. São questões que atravessam fronteiras e sectores.
Filmes que exploram o cansaço, a incerteza, a migração, as responsabilidades de cuidado ou a procura de sentido no trabalho encontram ressonância porque reflectem experiências partilhadas actualmente por muitos trabalhadores. Para os profissionais presentes no festival, esta é uma oportunidade para olhar para a SST através de uma perspectiva social mais ampla e para pensar sobre questões que irão moldar o futuro do trabalho nos próximos anos.
Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis
A lista completa dos filmes nomeados para o Prémio Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis pode ser consultada aqui ou através dos filtros disponíveis no nosso directório de filmes.
Vencedores das edições anteriores:
• 2025: Wishful Filming, de Sarah Vanagt
• 2024: Favoriten, de Ruth Beckermann
• 2023: Hormigas Perplejas, de Mercedes Moncada Rodríguez
• 2022: The Beach of Enchaquirados, de Iván Mora Manzano
• 2021: Yoon, de Pedro Figueiredo Neto e Ricardo Falcão