O Doclisboa, em parceria com a Cinemateca Portuguesa, apresentará de 15 a 25 de Outubro uma retrospectiva dedicada a Lino Brocka (1939–1991), figura maior do cinema filipino e um dos realizadores mais influentes da história do cinema asiático. Com curadoria do também filipino artista e cineasta Khavn de la Cruz, em conjunto com as equipas de programação do festival e da Cinemateca, Lino Brocka – Matem o Artista Nacional será uma das mais importantes mostras de sempre dedicadas a este autor fundamental.
Realizador de mais de 60 filmes ao longo de pouco mais de duas décadas, Brocka construiu uma obra marcada por uma extraordinária intensidade formal e por um profundo compromisso com a realidade social e política das Filipinas. Trabalhando entre o cinema popular e o cinema de autor, entre o melodrama e o registo mais cru do seu país, entre a sensualidade e a violência, Brocka desenvolveu um retrato incisivo das desigualdades, da pobreza urbana, da repressão política, das tensões mas também dos desejos de uma sociedade em rápida transformação. Títulos como Manila in the Claws of Light (1975), Insiang (1976), Jaguar (1979), Bona (1980), This Is My Country (1984) e Macho Dancer (1988) afirmaram-no como uma das vozes mais poderosas do cinema mundial do seu tempo, conquistando reconhecimento internacional e presença regular nos principais festivais de cinema.
Será precisamente um destes filmes, Bona, a ser apresentado na habitual Sessão de Antecipação da Retrospectiva, na esplanada da Cinemateca, este ano agendada para a noite de 17 de Julho. Bona é um dos filmes mais aclamados de Lino Brocka, protagonizado por Nora Aunor numa das interpretações mais marcantes da história do cinema filipino. Através da obsessão de uma jovem por um actor medíocre e abusivo, o filme constrói um retrato devastador da exploração, da ilusão e das desigualdades sociais. Redescoberto internacionalmente nas últimas décadas, é hoje considerado uma das obras-primas de Brocka.

A importância de Brocka ultrapassa largamente as fronteiras do cinema filipino. Durante os anos da ditadura de Ferdinand Marcos, foi uma figura central da resistência cultural e um defensor activo da liberdade de expressão, fazendo do cinema um instrumento de denúncia e intervenção cívica, nunca abdicando para tal da criatividade e de uma forte marca autoral. A energia dos seus filmes, a atenção às vidas dos marginalizados e a capacidade de conjugar urgência política com grande força dramática continuam a influenciar gerações de cineastas em todo o mundo.
A retrospectiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional tem o apoio da Embaixada das Filipinas em Portugal e será um elemento central da programação do Doclisboa 2026 e oferece uma oportunidade rara para descobrir, em toda a sua amplitude, uma filmografia essencial para compreender não apenas a história do cinema asiático, mas também o papel do cinema enquanto forma de compromisso com a realidade.
Em Outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa.
