​Doclisboa 2026 apresenta restauros inéditos em retrospectiva dedicada a Lino Brocka, com a presença de Khavn

Organizada em parceria com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, com o apoio da Embaixada das Filipinas em Portugal e do Film Development Council of the Philippines (FDCP), a retrospectiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional reúne 19 filmes, incluindo 11 obras restauradas, clássicos e títulos raramente exibidos do cineasta filipino. Inaugurada a 16 de Outubro, a programação inclui ainda uma performance audiovisual de Khavn no CAM Gulbenkian e uma mesa-redonda sobre o legado de Brocka, com a participação de Khavn, John Torres e Achinette Villamor.

A 24.ª edição do Doclisboa apresenta, em parceria com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, uma retrospectiva dedicada a Lino Brocka (1939–1991), uma das figuras fundamentais da história do cinema filipino e asiático. Composta por 19 filmes, dos quais 11 obras restauradas, a retrospectiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional percorre uma obra vasta e singular, marcada por um profundo compromisso com a realidade social e política das Filipinas, reunindo títulos emblemáticos, filmes raramente exibidos e restauros inéditos. A retrospectiva conta com a curadoria de Khavn, cineasta, músico e artista filipino profundamente influenciado pela obra de Brocka, em colaboração com as equipas de programação do Doclisboa (Cecilia Barrionuevo) e da Cinemateca Portuguesa (Luís Mendonça).

Autor de mais de 60 filmes ao longo de pouco mais de duas décadas, Brocka construiu uma filmografia que atravessa o melodrama, o cinema de acção, a comédia, o terror e o film noir, utilizando frequentemente as formas do cinema popular para retratar as contradições da sociedade filipina. Durante a ditadura de Ferdinand Marcos, tornou-se uma figura central da resistência cultural, enfrentando a censura e a perseguição política. A sua obra, profundamente atenta às desigualdades sociais, à pobreza, à exploração e à violência do poder, continua a exercer uma influência determinante sobre sucessivas gerações de cineastas.

Um dos aspectos centrais da retrospectiva é a mostra de 11 obras restauradas, incluindo versões apresentadas pela primeira vez ao público. Entre elas encontra-se Wake Up, Maruja (1978), uma incursão pelo terror gótico tropical, protagonizada por Susan Roces, numa história em que uma actriz revisita um papel do passado e as fronteiras entre representação, memória e realidade se tornam progressivamente instáveis. A selecção inclui ainda Fight for Us (1989), um dos filmes mais contundentes de Lino Brocka, sobre a persistência da violência e da repressão política nas Filipinas após a queda da ditadura de Marcos. Outro destaque também é a estreia mundial da versão restaurada pela Cité de Mémoire, com financiamento do Film Development Council of the Philippines.

A estes títulos junta-se Weighed But Found Wanting (1974), uma das primeiras obras maiores de Brocka, que, através do olhar de um adolescente, expõe a hipocrisia, os preconceitos e as estruturas de exclusão da sociedade filipina. Restaurado em 4K, em 2026, pelo FDCP, em colaboração com o Philippine Film Archive (PFA), a Carlotta Films e a Janus Films (The Criterion Collection), o filme regressa ao grande ecrã, numa oportunidade de redescobrir uma obra marcada pela censura e pelas dificuldades de preservação do património cinematográfico filipino.

A retrospectiva inclui também os grandes títulos que consolidaram o reconhecimento internacional de Brocka. Insiang (1976), que inaugurou a retrospectiva na Cinemateca Portuguesa, foi o primeiro filme filipino no Festival de Cannes. Situado no bairro de Tondo, em Manila, acompanha uma jovem vítima de violência e traição familiar, num retrato implacável da pobreza urbana e das relações de poder. Em Manila in the Claws of Light (1975), um jovem chega à capital à procura da mulher que ama, desaparecida num mundo de exploração e tráfico humano, descobrindo uma cidade onde a promessa de uma vida melhor se transforma num percurso de desilusão e violência.

A selecção prossegue com Jaguar (1979), em película de 35 mm, um retrato das relações entre violência, ambição e desigualdade social, e Macho Dancer (1988), que acompanha um jovem oriundo de uma região rural das Filipinas, obrigado a procurar a sobrevivência na indústria do sexo em Manila. Em Cain and Abel (1982), Brocka transporta os conflitos de poder para o interior de uma família proprietária de terras, onde a rivalidade entre dois irmãos expõe as tensões entre herança, reconhecimento e autoridade. Já Bona (1980), apresentado na sessão de antecipação da retrospectiva na Cinemateca Portuguesa em Junho, acompanha a devoção obsessiva de uma jovem por um actor medíocre e abusivo. Protagonizado por Nora Aunor, o filme é um retrato da exploração e da idolatria, tanto no plano íntimo como no social.

A retrospectiva conta  ainda, em estreia nacional, com o primeiro e o último filmes de Lino Brocka, permitindo acompanhar os extremos de uma carreira tão prolífica quanto diversa. Wanted: Perfect Mother (1970), a sua primeira longa-metragem, adapta uma banda desenhada de Mars Ravelo e acompanha a história de um viúvo, dos seus quatro filhos e de uma governanta que entra nas suas vidas. No outro extremo encontra-se Above Everything Else (1991), o seu último filme, realizado num contexto de transição democrática e centrado numa jornalista envolvida com um político cujo poder deveria escrutinar. Separados por mais de duas décadas, estes dois títulos revelam a amplitude de um percurso que nunca deixou de interrogar as relações entre o indivíduo, a sociedade e as estruturas de poder.

Khavn: revisitar Brocka através do cinema, da música e do arquivo

Apresentação da retrospectiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional  | Créditos: Eduardo Martins

A presença de Khavn em Lisboa constitui outro dos momentos centrais da retrospectiva. Cineasta, escritor, músico e artista multidisciplinar, Khavn é uma das figuras mais importantes do cinema independente filipino contemporâneo, associado ao movimento No Wave. Autor de uma extensa obra cinematográfica, musical e literária, tem desenvolvido um trabalho marcado pela experimentação formal, pela liberdade criativa e por uma relação profunda com a história e a cultura das Filipinas. A influência de Lino Brocka atravessa o seu percurso, tornando a sua participação nesta retrospectiva particularmente significativa.

Depois de ter estado presente na sessão de abertura da retrospectiva, a 16 de Outubro, às 18h00, na Cinemateca Portuguesa, com a exibição de Insiang, Khavn apresentou, no dia 17 de Outubro, às 18h00, no CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian, a performance audiovisual Lino Brocka – Anarquista Nacional.

Construída a partir de vestígios do arquivo cinematográfico de Brocka, a performance cruza imagens recuperadas da sua filmografia com improvisação ao vivo para piano por Khavn. Partindo de materiais de diferentes proveniências e qualidades, incluindo imagens degradadas e fragmentos de filmes, a apresentação propõe uma nova aproximação à memória cinematográfica e política do realizador. Mais do que uma homenagem, trata-se de um exercício de reinvenção e diálogo entre duas gerações do cinema filipino, em que o arquivo se transforma em matéria viva de criação artística.

O legado de Lino Brocka em debate: Khavn e John Torres

No dia 20 de Outubro, às 14h00, na Sala Luís de Pina da Cinemateca Portuguesa, realiza-se a mesa-redonda “O Legado de Lino Brocka”, com a participação dos cineastas Khavn e John Torres, da produtora e argumentista filipina Achinette Villamor e moderação de Cecilia Barrionuevo e Luís Mendonça. A conversa propõe uma reflexão sobre a influência duradoura de Brocka no cinema filipino, abordando a actualidade da sua obra e a forma como o seu compromisso artístico e político continua a repercutir-se nas gerações seguintes. A sessão, co-organizada com a Cinemateca Portuguesa e com o apoio da Embaixada das Filipinas em Portugal, decorrerá em inglês, sem tradução, e terá entrada gratuita mediante levantamento de bilhete no próprio dia e local.

A presença de John Torres estabelece ainda uma ligação entre a retrospectiva e a secção Riscos, que este ano dedica um foco especial ao cineasta filipino. Uma das figuras mais singulares do cinema independente contemporâneo das Filipinas, Torres desenvolve uma obra marcada pela experimentação formal, pela fragmentação narrativa e pelo cruzamento entre ficção, documentário e memória. A sua participação na mesa-redonda permite prolongar a reflexão sobre o legado de Brocka e a sua influência nas novas gerações de cineastas.

Ao reunir 19 filmes de Lino Brocka e a presença de dois importantes cineastas filipinos contemporâneos, o Doclisboa propõe um diálogo entre diferentes gerações, reafirmando a actualidade de uma obra que fez do cinema um instrumento de resistência política e de liberdade artística.

A acompanhar a retrospectiva, a Cinemateca Portuguesa publica ainda um Caderno da Cinemateca, organizado por Luís Mendonça, que reúne textos do prórpio, Manuel S. Fonseca, Pierre Rissient, Antonio Rodrigues, Carlos Natálio, Nick Deocampo e Khavn, propondo diferentes olhares sobre a obra e o percurso de Lino Brocka.

 

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