Tenho de começar por algum lado. Assim, vou começar pelos pombos.
Na sua última manhã, a 21 de Maio de 1991, Lino Brocka acordou às 6:30 e foi dar de comer aos seus pássaros. Dois periquitos, um mainá que gritava “Feio!” e um par de pombos que comprara como presente do Dia da Mãe para a mãe. Passava horas sentado simplesmente a observá-los. Estava sempre a dizer à governanta, “Não são bonitos, os pombos?”, como se tivesse acabado de descobrir tais criaturas. Nessa noite, já depois da meia-noite, na East Avenue, o carro em que seguia embateu num poste de cimento. Tinha 52 anos.
Uns dizem que foi um acidente bizarro. Outros dizem que se calou um tagarela. Eu não estava lá. Constato apenas que, no nosso país, ambas as explicações são plausíveis e que isso é um dos temas dos seus filmes.
Tenho agora 52 anos, precisamente a idade que ele tinha quando morreu, e passei os últimos meses mergulhado nos seus 64 filmes, nas suas cartas, nas suas entrevistas, nas suas dívidas. Não aconselho organizar a vida de um homem falecido precisamente com a idade que ele tinha quando morreu. Recomendo, sim, os filmes.
Nas Filipinas, “artista nacional” não é um elogio. É um título oficial, conferido pelo Estado, a maior honra que o Governo pode atribuir a um artista, vivo ou morto. Implica uma coroa de louros, um subsídio e um funeral de Estado. Brocka recebeu-o em 1997, seis anos após a sua morte. O mesmo Estado, nas suas várias roupagens, proibira os seus filmes, prendera-o sem julgamento, destruíra as suas cópias e obrigara-o a recorrer ao Supremo Tribunal para defender que o seu país tinha o direito de se ver a si próprio. Foi condecorado a título póstumo, o que significa que não foi consultado. Se tivesse sido consultado, teria recusado. Em vida, definia-se como anarquista. Por isso, o título desta retrospectiva não é uma provocação. É uma correcção. O artista nacional é uma estátua. Viemos em busca do homem que respondia às estátuas.
Pode dizer-se que Brocka fazia melodramas. Também se pode dizer que um tufão é apenas um fenómeno meteorológico.
O seu primeiro filme foi uma nova versão de Música no Coração. Pensem nisso. O cineasta político mais feroz da Ásia ingressou no cinema pela mão de Rodgers e Hammerstein e nunca se desculpou, porque percebeu o que os puristas não percebem: as formas populares não são inimigas da verdade, são apenas um sistema de transmissão. Fez adaptações de banda desenhada, filmes protagonizados por estrelas, melodramas e comédias, incluindo uma em que o rei da comédia filipina interpreta um pai homossexual a criar um filho em 1978. Filmes de acção, um filme de guerra, um filme de boxe, filmes históricos sobre revolucionários do século XVIII contra a Espanha colonial e sobre os três padres enforcados em 1872. Um filme rodado no Japão; um filme rodado no Havai. E ainda seis anúncios de refrigerante de laranja – presentes neste programa, de trinta segundos cada, “Ako At Royal, Natural!” –, porque os filmes sobre os pobres não sustentavam o cineasta pobre. Uma retrospectiva que esconde o refrigerante mente e ele teve o seu quinhão disso enquanto viveu.
Também realizou filmes noir. Direi mais: Brocka é um dos grandes realizadores de filmes noir e ninguém reparou nisso porque as ruas, à noite, eram em Manila e as sombras falavam tagalo. Um rapaz do interior percorre a cidade à procura de uma rapariga raptada e torna-se assassino. Um guarda-costas assume a culpa pelos ricos. Uma rapariga dos bairros de lata transforma a sua violação numa vingança fria e paciente. Cidades nocturnas, corpos encurralados, desejo e dinheiro a transformar os inocentes em armas – eis filmes noir envoltos em humidade, onde a femme fatale é a própria pobreza. Hollywood inventou as sombras. Brocka vivia na rua onde elas eram projectadas.
Ele documentou Manila enquanto a romanceava: bairros de lata reais, zonas de prostituição reais, multidões que não eram figurantes porque ninguém lhes pagava. Os seus planos gerais, por si só, constituem um arquivo de uma cidade desaparecida. Teria sido um excelente documentarista. De certa forma, era, introduzindo a cidade real em filmes comerciais da mesma forma que introduzia a política no melodrama. Os censores procuravam sinais de subversão. Nos seus filmes, a subversão chegava a chorar, disfarçada de mãe, e passava por eles despercebida.
Teve quatro carreiras, mas tratava-as como se fossem uma só. Cinema. Teatro – a partir de um palco no interior do Forte de Santiago, a fortaleza onde Rizal¹ esteve preso antes da execução; teatro político filipino, literalmente encenado no seio da ferida nacional, e algo nele nunca mais voltou a ser o mesmo depois disso, graças a Deus. Televisão – dramas de antologia com guiões completos e dias de ensaio, algo inédito na época; só esse conjunto de obras faria outra carreira. E a rua: a marchar contra a censura, pela liberdade de expressão, pelos colegas presos e, uma vez, por uma greve dos jeepneys² devido ao preço da gasolina – o realizador mais famoso do país a protestar contra os custos do combustível, porque o seu público andava de jeepney e a sua consciência não fazia distinção entre causas grandes e pequenas. Quando o ditador caiu, ele continuou a marchar, porque o Governo seguinte também o baniu. Ele compreendia que a ditadura não é um homem, mas um hábito.
Esta retrospectiva inclui o cânone – os filmes que chegaram a Cannes, a começar por Insiang, o primeiro filme filipino de sempre exibido nesse festival. Mas o cânone conta-se pelos dedos das mãos.
O homem realizou 64 filmes. Assim, a par dos célebres, esta retrospectiva inclui os esquecidos: filmes nunca exibidos fora das Filipinas; filmes que nem sequer são discutidos nas escolas de cinema filipinas; filmes que sobrevivem apenas em vídeos desgastados: U-matic, Betacam, VHS, Betamax, gravações de programas de televisão.
Eis a parte verdadeiramente escandalosa: as Filipinas não tinham um arquivo cinematográfico nacional até 2011. Vinte anos após a sua morte. Tudo o que sobreviveu de antes deve-se aos cinéfilos, aos coleccionadores e aos piratas que gravavam filmes da televisão às tantas da noite. 58 dos 64 filmes existem de uma forma ou de outra porque pessoas sem responsabilidade oficial se recusaram a deixá-los desaparecer. Há que dizer que os piratas não fizeram um mau trabalho. Cinco ou seis filmes continuam perdidos – sem negativo, sem cópia, sem localização – e há rumores, sempre rumores, de que um deles está a caminho de casa. Mostramos de bom grado os fantasmas riscados. Um fantasma riscado continua a ser um fantasma. Veja-se o que resta enquanto ainda resta.
Também incluído: Oca, uma curta-metragem de sete minutos realizada para uma antologia internacional ao lado de Godard e Jerry Lewis. Só essa frase já vale o bilhete.
Quem era Lino Brocka? Homossexual, filho ilegítimo, provinciano, pobre. O filho de um carpinteiro que, em criança, cantava para os vendedores do mercado e os fazia chorar para que as suas sampaguitas³ se vendessem. Um antigo missionário mórmon. Um empregado de mesa em São Francisco, em 1966, onde o bairro de Tenderloin⁴ lhe ensinou coisas para as quais o seu país ainda não tinha palavras. O homem que ajudou a inscrever a liberdade de expressão na Constituição das Filipinas – um anarquista a redigir leis, o seu melhor paradoxo – e que levou para Cannes um barong⁵ pintado com um mapa vermelho-sangue do seu país: JUSTIÇA no peito, LIBERTEM O ARTISTA nas costas.
Os filmes de Lino Brocka não são lições de história. São o presente. Veja-se as notícias de hoje.
Porque os tempos são maus, dizia ele, e em tempos como estes é um crime descansar.
Ele alimentava os pombos. Não descansava. Durante onze dias em Outubro, em Lisboa, também não devem descansar.
Khavn
Co-Curador da retrospectiva