Nas Filipinas, “artista nacional” não é um elogio. É um título oficial, conferido pelo Estado, a maior honra que o Governo pode atribuir a um artista. Brocka recebeu-o em 1997, seis anos após a sua morte. O mesmo Estado proibira os seus filmes, prendera-o sem julgamento, destruíra as suas cópias e obrigara-o a recorrer ao Supremo Tribunal para defender que o seu país tinha o direito de se ver a si próprio. Foi condecorado a título póstumo, o que significa que não foi consultado. Teria recusado. Definia-se como anarquista. Por isso, o título desta retrospectiva não é uma provocação. É uma correcção. Brocka é um dos grandes realizadores de filmes noir e ninguém reparou nisso porque as ruas à noite eram em Manila e as sombras falavam tagalo. Cidades nocturnas, corpos encurralados, desejo e dinheiro a transformar os inocentes em armas – filmes noir envoltos em humidade, onde a femme fatale é a própria pobreza. Hollywood inventou as sombras. Brocka vivia na rua onde elas eram projectadas. Ele percebeu o que os puristas não percebem: as formas populares não são inimigas da verdade, são apenas um sistema de transmissão. Fez adaptações de banda desenhada, filmes protagonizados por estrelas, melodramas e comédias, filmes de acção, um filme de guerra, um filme de boxe, filmes históricos e seis anúncios, porque os filmes sobre os pobres não sustentavam o cineasta pobre. Esta retrospectiva inclui o cânone – a começar por Insiang, o primeiro filme filipino de sempre exibido em Cannes – e os esquecidos: filmes nunca exibidos fora das Filipinas; filmes que nem sequer são discutidos nas escolas de cinema filipinas; filmes que sobrevivem apenas em vídeos desgastados.
Khavn De La Cruz
Curador da retrospectiva