Corpo de Trabalho

Este ano, o trabalho tem estado no centro do debate público, com a implementação generalizada do lay-off e do trabalho a partir de casa e sobretudo o espectro de uma crise económica que já atirou milhões para o desemprego. A distinção entre trabalho essencial e não-essencial, demasiado bem conhecida dos trabalhadores do sector da cultura, espalhou-se a toda a sociedade, pondo a nu as contradições do sistema. Nesse contexto, a reflexão sobre o lugar do trabalho nas nossas vidas, mas também sobre os contornos do que definimos como trabalho, afigura-se particularmente oportuna.

A relação do cinema com o mundo do trabalho remonta ao primeiro plano filmado pelos irmãos Lumière à porta da sua própria fábrica, imagem-matriz que Harun Farocki revisita cem anos mais tarde. Paradoxalmente, parte para uma reflexão sobre a “saída” do trabalho – para o tempo “livre”, a greve, o lock-out, o desemprego… Questões essas que ressurgem das mais diversas formas noutros filmes do programa – em Estorãos, um grupo de mulheres canta ao ritmo da lavoura e das suas pausas; Lúcia e Conceição sonham deixar o trabalho rural e os Açores; o despedimento de Wanda lança-a numa fuga sem rumo; Suzanne descobre a sua própria força nas greves de 1968; 48 operárias tomam em mãos o seu destino, recusando o lock-out da Sogantal; a crise do sonho industrial americano revela as suas cicatrizes distópicas em California Company Town . Emerge a ideia de que o cinema, mais do que retratar o trabalho, nos fala das suas fracturas. Assim, Hervé Leroux procura a operária que não quer retomar o trabalho na fábrica Wonder. A jovem mãe anónima que Helke Sander imagina a partir de relatórios de patrulha policial escolhe um estaleiro de obra para o seu protesto suicida por uma habitação; imaginamo-la desempregada, embora seguramente, com dois filhos pequenos a cargo, não lhe falte trabalho.
A condição da mulher é o tema explícito de Une femme, une famille, o episódio que conclui o monumental fresco sobre a Revolução Cultural realizado por Joris Ivens e Marceline Loridan. Em Mudar de Vida, duas mulheres – a operária indomável e a mulher do pescador, moribunda, representam o confronto entre o velho e o novo mundo. É aliás a Paulo Rocha que devo a descoberta de Imamura. No seu filme, a história de vida e de trabalho de Madame Onboro cruza-se com a do país, entre a guerra e as lutas sociais e políticas. Logo de início, a discussão do contrato da actriz principal coloca o fabrico do filme sob o signo de uma relação laboral contratualizada, ao invés da actividade de Madame Onboro, dona de uma casa de alterne. Os direitos laborais das prostitutas são o foco da greve filmada por Carole Roussopoulos em 1975. Profissões antigas, embora não a mais antiga do mundo, chamaram a atenção de Alain Cavalier, que, nos seus Portraits, partilha encontros com trabalhadoras já perto da reforma; aqui e ali, o cineasta reflete sobre o seu próprio trabalho e as escolhas que faz. O registo singelo do último espectáculo de Véronique Doisneau, prestes a retirar-se dos palcos, é um raro testemunho do trabalho da bailarina e da força do cinema.
Este programa propõe, filme após filme, uma rota de reflexão sobre a poética e a problemática do trabalho, em que cada obra derrama a sua luz sobre todas as outras.

– Amarante Abramovici

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Sessão de Abertura
23 OUT / 19:00 / Cinema São Jorge
30 OUT / 15:00 / Cinema São Jorge

Uma zona residencial volta a ser um campo de batalha nos confrontos entre grevistas e Polícia. Após o fracasso da última greve, os trabalhadores têm de escolher entre a acção e a apatia. O filme observa uma comunidade mineira pelo prisma da etnoficção enquanto esta negoceia o declínio da mesma indústria que permitiu o seu surgimento. Um longo período de desindustrialização que afecta a região inteira dá lugar a uma paisagem decadente de bocas de minas e aterros de entulho.

24 OUT / 18:00 / Cinema São Jorge
25 OUT / 15:00 / Cinema São Jorge

Uma das divisões no interior do lendário cabaré Barba Azul tornou-se num abrigo para as raparigas que ali trabalham: a casa de banho das mulheres. Todas as noites, La Mami, que é responsável pelas casas de banho, dá-lhes o carinho e o aconselhamento de que precisam para enfrentar o desafio que têm pela frente na pista de dança. Lembram-nos que as alianças são decisivas quando a sociedade em que vivemos nos está constantemente a julgar e a estigmatizar.

25 OUT / 18:00 / Cinema São Jorge
31 OUT / 15:00 / Cinema São Jorge

The Kiosk é um jornal filmado de uma jovem artista plástica que veio dar uma mão à mãe, vendedora de jornais num distrito chique de Paris. Os membros da sua família vêm-se sucedendo atrás da caixa registadora há quase um século e observando o mundo em evolução. Da descoberta da profissão à cumplicidade que se forja com a clientela, a realizadora brinca à comerciante, como num sonho de infância antigo. Mas a imprensa está em crise e, com o passar das estações, o seu joguinho revela-se menos divertido do que o esperado.

26 OUT / 19:00 / Cinema São Jorge
27 OUT / 15:00 / Cinema São Jorge

Valerie, Lili e Isabella têm todas 19 anos e trabalham como estagiárias numa oficina de restauro de pinturas em Baden-Baden. É o primeiro passo para a vida profissional após a escola. Têm um ano para descobrir se querem ser restauradoras ou não. Enquanto trabalham, discutem temas como arte, amizade, família e naturalmente o próprio trabalho. O filme mostra estas reflexões pessoais e dá uma perspectiva sobre a arte do restauro.

27 OUT / 19:00 / Cinema São Jorge
28 OUT / 15:00 / Cinema São Jorge

O que têm em comum um fazendeiro no Kansas, um operário despedido no Ohio e uma motorista da Uber na Florida? São os três optimistas expeditos que se esforçam por se adaptar e prosperar apesar das forças desumanizantes em acção na economia americana. Ao encararem os entraves com coragem, alguns ideais permanecem sagrados para os heróis do filme: família, amor e manter-se forte perante a adversidade. Em última instância, The Disrupted revela uma experiência americana colectiva de desafio financeiro, resiliência familiar e a busca do propósito e da dignidade do trabalho.

28 OUT / 19:00 / Cinema São Jorge
29 OUT / 15:00 / Cinema São Jorge

Uma pequena localidade na parte ocidental da Alemanha é a última paragem para 26 000 porcos por dia e residência temporária para multidões de trabalhadores temporários da Europa de Leste. Os trabalhadores do maior matadouro do país lutam pela sobrevivência enquanto activistas alemães que defendem os seus direitos lutam contra as autoridades locais. Ao mesmo tempo, estudantes do ensino secundário trabalham na peça Santa Joana dos Matadouros e procuram compreender o texto antigo e o capitalismo alemão dos nossos dias.

29 OUT / 19:00 / Cinema São Jorge

A um quilómetro de profundidade na costa do condado de North Yorkshire, mineiros de sal e investigadores trabalham lado a lado no limite da biosfera. Uma mulher jovem descobre um futuro novo na escuridão deste ambiente extremo.

30 OUT / 19:00 / Cinema São Jorge
1 NOV / 15:00 / Cinema São Jorge

Qual o valor do trabalho na era da revolução digital? Na Audi, Seda (20 anos) organiza peças na linha de montagem robotizada. Sonha ter o seu próprio Mercedes e não tem vontade de casar e ter filhos. Eva (30 anos) gosta de ir de bicicleta para o trabalho. A trabalhar como caça-talentos para a Audi, procura especialistas para automatizar a fábrica. Eva quer viver com a namorada nas Caraíbas e deixar de trabalhar. Sabe que o seu emprego será substituído por algoritmos. Duas representantes de uma geração para quem o trabalho não é uma certeza nem um factor de identidade.

31 OUT / 18:00 / Cinema São Jorge

Os ideais comunistas há muito que perderam valor em Yiwu, uma cidade onde 600 fábricas produzem o Natal como o conhecemos para o mundo inteiro. Com o aumento dos salários nas fábricas, a maior parte dos trabalhadores pode agora comprar os iPhones mais recentes, mas continuam a dormir em dormitórios fabris superlotados, sendo todos migrantes dentro do seu país. Entalados entre as tradições chinesas e o sonho chinês recém descoberto, querem ser ricos, ser independentes e apaixonar-se.